Filho se torna assistente de acusação em processo que julga réu pelo assassinato da mãe dele há 28 anos
28 anos após perder a mãe, filho se torna assistente de acusação contra suspeito do crime Bruno Fernandes tinha dois anos quando a mãe, Ivaneide Barbosa Fe...
28 anos após perder a mãe, filho se torna assistente de acusação contra suspeito do crime Bruno Fernandes tinha dois anos quando a mãe, Ivaneide Barbosa Fernandes Silva, foi assassinada em Milhã, em 1998, no interior do Ceará. 28 depois, ele passou a integrar a assistência da acusação no processo contra o homem apontado como autor do crime, que ficou foragido por mais de duas décadas e ainda será julgado pelo Tribunal do Júri. A reviravolta começou após a repercussão do feminicídio da jovem Ana Kévile, também no interior do Ceará. Ao acompanhar o caso, Bruno decidiu procurar o Ministério Público para saber se ainda era possível buscar justiça pelo assassinato da mãe. Foi então que descobriu que o processo continuava em andamento e que poderia atuar ao lado da acusação na ação penal, em junho deste ano (confira no vídeo acima). ✅ Clique e siga o canal do g1 Ceará no WhatsApp Ivaneide Barbosa foi morta após ser atacada com dois golpes de faca. A vítima trabalhava em um bar da cidade, e o acusado havia comprado uma faca pouco antes de ferir a mulher na porta do estabelecimento, por volta das 21h30. O crime aconteceu há exatamente 28 anos, no dia 9 de julho de 1998. 🔍 A figura jurídica do assistente de acusação é prevista em qualquer ação do Ministério Público em que a vítima não pode se defender, podendo ser exercida por pais, cônjuges, filhos ou irmãos. Descoberta do processo em andamento 28 anos após perder a mãe, filho se torna assistente de acusação contra suspeito do crime no Ceará Arquivo Pessoal Até pouco tempo, Bruno Fernandes e outros três filhos de Ivaneide acreditavam que, pelo tempo decorrido, o crime já havia prescrito. Quando um crime prescreve, o Estado não pode mais aplicar penas ao acusado. No entanto, ele foi lembrado mais uma vez da própria tragédia familiar ao ler sobre Ana Kévile, que foi vítima de feminicídio em Deputado Irapuan Pinheiro, no interior do Ceará, no mês de abril. “A Ana Kévile recusou a investida dele [o suspeito do crime] e foi assassinada. E a minha mãe também foi dessa maneira, embora na denúncia oferecida pelo Ministério Público não conste especificamente este motivo. Mas a minha família e a cidade inteira sabem o real motivo: que o réu, à época, tinha interesse nela e ela não queria”, afirmou Bruno em entrevista ao g1. Aos 30 anos, Bruno exerce o cargo de ouvidor-geral adjunto do Município de Milhã. Comovido com a repercussão de vários feminicídios nos últimos meses, ele resolveu enviar um ofício ao Ministério Público do Ceará pedindo informações sobre o caso da mãe, como o andamento do processo, prescrição e providências adotadas. A resposta do órgão trouxe algumas surpresas. Uma delas era uma ação penal em curso contra o acusado. Após ter sido preso e ter fugido da cadeia semanas depois do crime, o homem ficou foragido por décadas. Ainda em 1998, a Justiça interrompeu a prescrição do crime. “Para a nossa família, até então, o que tínhamos era: ‘prescreveu’. Uma família simples, antigamente, em 1998, não tinha entendimento e não sabia, de fato, como proceder”, explicou Bruno. Chances de um novo desfecho O caso voltou a andar em 2016, quando o Ministério Público expediu novo mandado de prisão e solicitou informações a diversos órgãos em busca da localização do suspeito. Com a descoberta do endereço atualizado, por meio do domicílio eleitoral, ele foi preso em 2023, no estado de Rondônia. Quando Bruno e os familiares descobriram sobre a prisão, o suspeito, que tem 63 anos, já tinha recebido a liberdade provisória. Ele aguarda julgamento monitorado por tornozeleira eletrônica. Bruno Fernandes não quis divulgar o nome do réu. “Ele se isentou da Justiça em 25 anos, é preso em outro estado, longe de onde cometeu o crime. A Justiça prende, a Justiça solta cinco meses depois porque ele está longe da família da vítima”, detalha Bruno. Entre as testemunhas que já foram ouvidas na ação penal, estão a ex-companheira do acusado, que relatou que o homem tinha chegado em casa sujo de sangue após o crime; e o dono do estabelecimento que teria vendido a faca utilizada pelo suspeito para atacar Ivaneide. LEIA TAMBÉM: Feminicídios crescem 46% no Ceará neste ano; casos de violência contra a mulher também aumentam Do luto à luta: saiba como familiares que perderam parentes de forma violenta se tornaram assistentes de acusação em processos Com o apoio de advogados, Bruno fez o pedido de habilitação para se tornar assistente de acusação no caso, tendo a solicitação aceita pelo Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) no mês de junho. Conforme explicou ao g1, ele poderá atuar no julgamento com auxílio ao Ministério Público. Entre as atribuições da função estão fazer perguntas e indicar novas testemunhas para o processo. Familiares de Ivaneide, por exemplo, nunca haviam sido chamados para dar testemunho em juízo, após a conclusão do inquérito policial. Alívio e expectativa Bruno Fernandes se tornou assistente de acusação em processo contra homem que teria matado a mãe dele Arquivo Pessoal Quando Ivoneide foi morta, ela tinha deixado também duas filhas, de 1 e 4 anos de idade, e um filho mais velho, que tinha 9 anos. As duas irmãs de Bruno moram em São Paulo, enquanto ele e o irmão residem em Milhã. Enquanto tentava novas informações sobre o caso, Bruno preferiu não contar aos irmãos para não alimentar falsas expectativas. Depois, as descobertas foram compartilhadas com os familiares e geraram surpresa entre eles. “O sentimento da nossa família, principalmente dos meus irmãos, é um só: [pedir por] justiça, somente. Nada, nada do que for feito vai trazer ela de volta, isso é um fato. Então, o nosso desejo é que se faça justiça, mesmo tardia”, comentou. Após a morte da mãe, Bruno relata ter contado com muito apoio e acolhimento, mas recorda as dores de ter crescido sem conseguir lembrar de como era o rosto de Ivaneide. Ele só conseguiu criar estas memórias com ajuda das fotografias da família. “Eu tive meu pai, a minha avó e a minha madrasta, que fez um papel gigantesco na nossa vida e é uma pessoa que a gente ama muito... Mas nada substitui o amor de mãe, nada substitui a criação da mãe. E a gente se pega a perguntar: como seria? Como seria essa criação dela? Quem eu seria hoje?”, comenta Bruno. A próxima etapa do processo — quando o réu será levado a júri popular na comarca de Solonópole — ainda não tem data marcada. A expectativa da família é que não haja uma espera longa por uma chance de ver o acusado responsabilizado pelo homicídio. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará: